Estamos na era das liberdades e das escolhas. Será? Nas plataformas, temos a liberdade de escolher os filmes e as séries que estão ali, claro, colocados pelo algoritmo. É quando a IA passa a conhecer o espectador: o que ele gosta de assistir, o momento em que pausou e até mesmo o filme ou a série que deixou para trás.
Isso faz com que a gente deixe de ser apenas um mero consumidor e passe a ser um gerador constante de dados. É claro que essa coleta de dados vai direto para os produtores, gerando, assim, certa promessa comercial. As histórias, agora em segundo plano no quesito necessidade ou relevância, passam a ser questionadas sobre se o gênero e a duração têm chance de retenção do espectador. O roteirista, que era uma grande mente por trás das histórias, agora pode estar a caminho de se tornar um cara que terá que analisar algoritmos e planilhas para saber em qual pico, momento ou emoção a próxima produção ou capítulo vai reter o público.
Tochas devem ser erguidas e uma cruzada deve ser levantada contra os servidores das inteligências artificiais? Acho que ainda não estamos à beira de um colapso com a Skynet. Essas ferramentas ajudam a reduzir custos, organizar materiais, criar legendas e ampliar a acessibilidade. Melhoram as pesquisas, fazendo com que produtoras pequenas, como a minha, possam ter uma chance de apresentar projetos ou trabalhos aos quais apenas as grandes produtoras e os estúdios tinham acesso. A tecnologia deve ser uma ferramenta, e a criação e o artista sempre serão necessários. Sempre.
O problema começa quando os dados deixam de orientar e passam a comandar.
Com um antolho digital, o algoritmo passa a recomendar o que já foi consumido e fica nesse ciclo de mais do mesmo. Meu algoritmo da Netflix deve achar que eu tenho Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI), pois faço que nem o Ronaldinho Gaúcho: olho para um lado e chuto para o outro. Escolho as coisas mais aleatórias para assistir. Não que eu seja um consumidor de tudo, mas só para ter a falsa esperança de que não me controlam. Falsa esperança. Mas isso sou eu. A grande maioria, depois de um dia cansativo ou em um fim de semana para relaxar, só quer pegar o controle na mão e assistir àquela recomendação que está na sua frente. E, assim, o controle está com quem?
No mundo ideal, a inteligência artificial deveria ser essa ferramenta de pesquisa e estímulo à inovação. Mas vejo cada vez mais que ela está promovendo uma harmonização digital com seu antolho digital, deixando as escolhas cada vez mais seguras para a repetição e menos abertas aos riscos da criatividade. Acendam, sim, suas tochas, mas continuem iluminando a criatividade.